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Capítulo I — A passagem
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A confiança na vida futura não exclui as apreensões da passagem desta vida à outra. Muitas pessoas não temem a morte pela própria morte; o que temem é o momento da transição. Sofre-se ou não se sofre na travessia? é isso o que as inquieta; e a coisa vale tanto mais a pena quanto ninguém pode escapar dela. Pode-se dispensar uma viagem terrestre; mas aqui, ricos como pobres devem dar esse passo, e se ele é doloroso, nem a posição nem a fortuna poderiam suavizar-lhe a amargura.
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Ao ver a calma de certas mortes, e as terríveis convulsões de agonia de outras, já se pode julgar que as sensações não são sempre as mesmas; mas quem pode informar-nos a esse respeito? Quem nos descreverá o fenômeno fisiológico da separação da alma e do corpo? Quem nos dirá as impressões nesse instante supremo? Sobre este ponto a ciência e a religião são mudas.
E por que isso? Porque falta a ambas o conhecimento das leis que regem as relações do espírito e da matéria; uma se detém no limiar da vida espiritual, a outra no da vida material. O Espiritismo é o traço de união entre as duas; só ele pode dizer como se opera a transição, quer pelas noções mais positivas que ele dá da natureza da alma, quer pelo relato daqueles que deixaram a vida. O conhecimento do laço fluídico que une a alma e o corpo é a chave deste fenômeno, como de muitos outros.
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A matéria inerte é insensível: isto é um fato positivo; só a alma experimenta as sensações do prazer e da dor. Durante a vida, toda desagregação da matéria repercute na alma que recebe daí uma impressão mais ou menos dolorosa. É a alma que sofre e não o corpo; este não é senão o instrumento da dor: a alma é o paciente. Após a morte, estando o corpo separado da alma, ele pode ser impunemente mutilado, pois não sente nada; estando a alma isolada dele, não recebe nenhum dano da desorganização deste último; ela tem suas sensações próprias cuja fonte não está na matéria sensível. O perispírito é o envoltório fluídico da alma, da qual ele não está separado nem antes, nem depois da morte, e com a qual ele constitui uma unidade, pois um não se pode conceber sem a outra. Durante a vida, o fluido perispiritual penetra o corpo em todas as suas partes e serve de veículo às sensações físicas da alma; é igualmente por seu intermédio que a alma age sobre o corpo e lhe dirige os movimentos.
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A extinção da vida orgânica traz a separação da alma e do corpo pela ruptura do laço fluídico que os une; mas esta separação nunca é brusca; o fluido perispiritual se liberta pouco a pouco de todos os órgãos, de modo que a separação não é completa e absoluta a não ser quando não resta mais um único átomo do perispírito unido a uma molécula do corpo. A sensação dolorosa que a alma experimenta nesse momento é devida à soma dos pontos de contato que existem entre o corpo e o perispírito, e da maior ou menor dificuldade e lentidão que a separação apresenta. Não se deve portanto dissimular que, segundo as circunstâncias, a morte pode ser mais ou menos penosa. São essas diferentes circunstâncias que vamos examinar.
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Estabeleçamos inicialmente, como princípio, os quatro casos seguintes, que se podem ver como as situações extremas, entre as quais há uma quantidade de nuances:
1.º Se no momento da extinção da vida orgânica, o desprendimento do perispírito se operasse completamente, a alma não sentiria absolutamente nada;
2.º se nesse momento a coesão dos dois elementos está com toda a sua força, produz-se uma espécie de dilaceramento que reage dolorosamente sobre a alma;
3.º se a coesão é fraca, a separação é fácil e se opera sem abalo;
4º se, depois da cessação completa da vida orgânica, ainda existirem inúmeros pontos de contato entre o corpo e o perispírito, a alma poderá sentir os efeitos da decomposição do corpo até que o laço seja completamente rompido.
Disto resulta que o sofrimento, que acompanha a morte, está subordinado à força de aderência que une o corpo e o perispírito; que tudo o que pode ajudar na diminuição dessa força e na rapidez do desprendimento torna a passagem menos penosa; por fim, que se o desprendimento se opera sem nenhuma dificuldade, a alma não experimenta nenhuma sensação desagradável.
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Na passagem da vida corpórea à vida espiritual produz-se ainda outro fenômeno de importância capital: é o da perturbação. Nesse momento, a alma experimenta um entorpecimento que paralisa momentaneamente suas faculdades e neutraliza, ao menos parcialmente, as sensações; ela fica, por assim dizer, em estado cataléptico, de sorte que quase nunca é testemunha consciente do último suspiro. Dizemos quase nunca porque há um caso em que ela pode ter consciência, como veremos em breve. A perturbação pode então ser considerada como o estado normal no instante da morte; sua duração é indeterminada; ela varia de algumas horas a alguns anos. À medida que a perturbação se dissipa, a alma fica na situação de um homem que sai de um sono profundo; as ideias são confusas, vagas e incertas; vê como através de um nevoeiro; pouco a pouco a vista clareia, a memória volta, e reconhece a si mesma. Mas esse despertar é bem diferente, de acordo com os indivíduos; nuns, é calmo e propicia uma sensação deliciosa; em outros, é cheio de terror e de ansiedade, e produz o efeito de um horrendo pesadelo.
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O momento do último suspiro não é portanto o mais penoso, porque, quase sempre, a alma não tem consciência de si mesma; mas antes, ela sofre pela desagregação da matéria durante as convulsões da agonia, e depois, pelas angústias da perturbação. Apressemo-nos a dizer que esse estado não é geral. A intensidade e a duração do sofrimento são, como mencionamos, proporcionais à afinidade que existe entre o corpo e o perispírito; quanto maior essa afinidade, mais os esforços do Espírito para se soltar de seus laços são longos e penosos; mas há pessoas nas quais a coesão é tão fraca que o desprendimento se opera por si mesmo e naturalmente. O Espírito separa-se do corpo como um fruto maduro se solta de seu caule; é o caso das mortes calmas e dos despertares tranquilos.
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O estado moral da alma é a causa principal que influi sobre a maior ou menor facilidade do desprendimento. A afinidade entre o corpo e o perispírito é proporcional ao apego do Espírito à matéria; ela atinge seu máximo no homem cujas preocupações se concentram todas na vida e nos gozos materiais; é quase inexistente naquele cuja alma purificada se identificou por antecipação com a vida espiritual. Visto que a lentidão e a dificuldade da separação são proporcionais ao grau de purificação e de desmaterialização da alma, depende de cada um tornar essa passagem mais ou menos fácil ou penosa, agradável ou dolorosa.
Posto isto, ao mesmo tempo como teoria e como resultado de observação, resta-nos examinar a influência do gênero de morte sobre as sensações da alma no último momento.
- Na morte natural, aquela que resulta da extinção das forças vitais pela idade ou a doença, o desprendimento se opera gradualmente; no homem cuja alma está desmaterializada e cujos pensamentos se desligaram das coisas terrestres, o desprendimento é quase completo antes da morte real; o corpo vive ainda a vida orgânica, e a alma já entrou na vida espiritual e não está mais ligada ao corpo a não ser por um laço tão fraco que se rompe sem dificuldade no último batimento do coração. Nessa situação, o Espírito pode ter já recuperado sua lucidez, e ser testemunha consciente da extinção da vida de seu corpo do qual está feliz de se ter libertado; para ele, a perturbação é quase nula; não é mais do que um momento de sono tranquilo, do qual ele sai com uma indizível impressão de felicidade e de esperança.
No homem material e sensual, aquele que viveu mais pelo corpo do que pelo espírito, para quem a vida espiritual não é nada, nem mesmo uma realidade em seu pensamento, tudo contribuiu para apertar os laços que o prendem à matéria; nada veio afrouxá-los durante a vida. Com a aproximação da morte, o desprendimento se opera também por graus, mas com esforços contínuos. As convulsões da agonia são o indício da luta travada pelo Espírito que por vezes quer romper os laços que lhe resistem, e outras vezes se agarra a seu corpo do qual uma força irresistível o arranca violentamente, parte por parte.
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O Espírito apega-se tanto mais à vida corpórea quanto não vê nada além; ele sente que ela lhe escapa, e quer segurá-la; em vez de se abandonar ao movimento que o arrasta, ele resiste com todas as suas forças; pode assim prolongar a luta durante dias, semanas e meses inteiros. Sem dúvida, nesse momento, o Espírito não tem toda sua lucidez; a perturbação começou muito tempo antes da morte, mas ele não sofre menos por isso, e o vazio em que se encontra, a incerteza do que lhe advirá, juntam-se às suas angústias. A morte chega, e nem tudo acabou; a perturbação continua; ele sente que vive, mas não sabe se é vida material ou vida espiritual; continua a lutar até que as últimas amarras do perispírito sejam rompidas. A morte pôs um termo à doença efetiva, mas não acabou com suas consequências; enquanto existem pontos de contato entre o corpo e o perispírito, o Espírito sente seus golpes e sofre.
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Bem diferente é a posição do Espírito desmaterializado, mesmo nas doenças mais cruéis. Sendo muito fracos os laços fluídicos que o unem ao corpo, eles se rompem sem nenhum abalo; depois, sua confiança no futuro, que ele já entrevê pelo pensamento, e às vezes mesmo em realidade, o faz encarar a morte como uma libertação e seus males como uma prova; daí, para ele, uma calma moral e uma resignação que aliviam o sofrimento. Depois da morte, sendo esses laços instantaneamente rompidos, nenhuma reação dolorosa se opera nele; ele se sente, ao despertar, livre, disposto, aliviado de um grande peso, e muito alegre por não mais sofrer.
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Na morte violenta, as condições não são exatamente as mesmas. Nenhuma desagregação parcial pôde trazer uma separação prévia entre o corpo e o perispírito; a vida orgânica, em toda sua força, é subitamente detida; o desprendimento do perispírito não começa senão depois da morte, e, neste caso como nos outros, não se pode operar instantaneamente. O Espírito, pego de improviso, fica como que atordoado; mas, sentindo que pensa, acredita que ainda está vivo, e essa ilusão dura até que se tenha dado conta de sua situação. Esse estado intermediário entre a vida corpórea e a vida espiritual é um dos mais interessantes a estudar, porque apresenta o singular espetáculo de um Espírito que toma seu corpo fluídico pelo seu corpo material, e que experimenta todas as sensações da vida orgânica. Ele oferece uma variedade infinita de nuances segundo o caráter, os conhecimentos e o grau de adiantamento moral do Espírito. É de curta duração para aqueles cuja alma está purificada, porque neles havia um desprendimento antecipado do qual a morte, mesmo a mais súbita, apressa apenas o cumprimento; em outros, ele pode se prolongar durante anos. Esse estado é muito frequente, mesmo nos casos de morte comum, e não tem, para alguns, nada de penoso segundo as qualidades do Espírito; mas para outros, é uma situação terrível. É sobretudo no suicídio que essa posição é mais penosa. O corpo, ligado ao perispírito por todas as suas fibras, todas as convulsões do corpo repercutem na alma, que por isso experimenta atrozes sofrimentos.
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O estado do Espírito no momento da morte pode resumir-se assim: O Espírito sofre tanto mais quanto o desprendimento do perispírito é mais lento; a prontidão do desprendimento é proporcional ao grau de adiantamento moral do Espírito; para o Espírito desmaterializado cuja consciência é pura, a morte é um sono de alguns instantes, isento de todo sofrimento, e cujo despertar é cheio de suavidade.
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Para trabalhar por sua purificação, reprimir suas más tendências, vencer suas paixões, é preciso ver as vantagens disso no futuro; para se identificar com a vida futura, dirigir a ela suas aspirações e preferi-la à vida terrestre, é preciso não só crer nela, mas compreendê-la; é preciso representá-la de maneira satisfatória para a razão, de acordo com a lógica, o bom senso e a ideia que se faz da grandeza, da bondade e da justiça de Deus. De todas as doutrinas filosóficas, o Espiritismo é a que exerce, sob esse aspecto, a mais poderosa influência pela fé inabalável que ele dá.
O espírita sério não se limita a crer; ele crê porque compreende, e ele compreende porque nos dirigimos ao seu julgamento; a vida futura é uma realidade que se desenrola incessantemente a seus olhos; ele a vê e a toca por assim dizer em todos os instantes; a dúvida não pode entrar na sua alma. A vida corporal tão limitada se apaga para ele diante da vida espiritual que é a verdadeira vida; daí o pouco caso que ele faz dos incidentes do caminho, e sua resignação nas vicissitudes de que ele compreende a causa e a utilidade. Sua alma se eleva pelas relações diretas que ele mantém com o mundo invisível; os laços fluídicos que o ligam à matéria se enfraquecem, e assim se opera um primeiro desprendimento parcial que facilita a passagem desta vida à outra. A perturbação inseparável da transição é de curta duração, porque, tão logo dado o passo, ele se reconhece; nada lhe é estranho; ele se dá conta de sua situação.
- O Espiritismo sem dúvida não é indispensável a este resultado; assim, ele não tem a pretensão de ser o único a assegurar a salvação da alma, mas ele a facilita pelos conhecimentos que proporciona, os sentimentos que inspira e as disposições nas quais coloca o Espírito, ao qual faz compreender a necessidade de se aperfeiçoar. Ele dá a cada um, além disso, os meios de facilitar o desprendimento dos outros Espíritos no momento em que eles deixam seu envoltório terrestre, e de abreviar a duração da perturbação pela prece e a evocação. Pela prece sincera, que é uma magnetização espiritual, provoca-se uma desagregação mais rápida do fluido perispiritual; por uma evocação conduzida com sabedoria e prudência, e por palavras de benevolência e de encorajamento, tira-se o Espírito do entorpecimento em que se encontra, e ele é ajudado a se reconhecer mais cedo; se ele é sofredor, é excitado ao arrependimento, único que pode abreviar os sofrimentos.*
- Os exemplos que vamos citar apresentam os Espíritos nas diferentes fases de bem-aventurança e de desgraça da vida espiritual. Não fomos buscá-los nos personagens mais ou menos ilustres da antiguidade, cuja posição pôde mudar consideravelmente desde a existência que conhecemos deles, e que não ofereceriam, aliás, provas suficientes de autenticidade. Nós os extraímos das circunstâncias mais corriqueiras da vida contemporânea, porque são aquelas em que cada um pode encontrar mais semelhanças, e das quais se podem tirar as instruções mais proveitosas pela comparação. Quanto mais a existência terrestre dos Espíritos se aproxima de nós, pela posição social, as relações ou os laços de parentesco, mais eles nos interessam, e mais fácil é controlar a identidade deles. As posições comuns são as da maioria, é por isso que cada um pode fazer mais facilmente a aplicação delas; as posições excepcionais tocam menos, porque saem da esfera de nossos hábitos. Não são portanto as celebridades que nós buscamos; se, nestes exemplos, se acham algumas individualidades conhecidas, a maioria é completamente obscura; nomes retumbantes não teriam acrescentado nada à instrução e poderiam ter ferido susceptibilidades. Não nos dirigimos nem aos curiosos nem aos apreciadores de escândalo, mas àqueles que querem seriamente instruir-se.
Estes exemplos poderiam multiplicar-se ao infinito; mas, forçado a limitar seu número, escolhemos aqueles que podiam lançar mais luz sobre o estado do mundo espiritual, quer pela posição do Espírito, quer pelas explicações que ele era capaz de dar. A maioria deles é inédita; somente alguns já foram publicados na Revista espírita; suprimimos destes os detalhes supérfluos, não conservando senão as partes essenciais à finalidade que nos propomos aqui, e acrescentamos-lhes as instruções complementares que ocasionaram ulteriormente.
