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Capítulo II — Espíritos felizes
**Sr. Sanson**
O Sr. Sanson, antigo membro da Sociedade Espírita de Paris, morreu no dia 21 de abril de 1862, depois de um ano de cruéis sofrimentos. Prevendo seu fim, ele dirigira ao presidente da Sociedade uma carta contendo a passagem seguinte:
“Em caso de surpresa pela desagregação de minha alma e de meu corpo, tenho a honra de vos relembrar um pedido que vos fiz há cerca de um ano; evocar meu Espírito o mais imediatamente possível e com a maior frequência que julgardes apropriada, a fim de que, membro assaz inútil de nossa Sociedade durante minha presença na terra, eu lhe possa servir de alguma coisa no além-túmulo, dando-lhe os meios de estudar fase por fase, nessas evocações, as diversas circunstâncias que se seguem ao que o vulgo chama de morte, mas que, para nós, espíritas, não é senão uma transformação, segundo os desígnios impenetráveis de Deus, mas sempre útil à finalidade que ele se propõe.“Além desta autorização e pedido para me fazerem a honra dessa espécie de autópsia espiritual, que meu avanço demasiado pouco tornará talvez estéril, caso em que vossa sabedoria vos conduzirá naturalmente a não levar além de um certo número de tentativas, ouso pedir-lhes pessoalmente, assim como a todos os meus colegas, de ter a bondade de suplicar ao Onipotente que permita aos bons Espíritos assistir-me com seus conselhos benevolentes, em particular São Luís, nosso presidente espiritual, com a finalidade de me guiar na escolha e sobre a época de uma reencarnação; pois, desde já, isso me ocupa muito; temo enganar-me sobre minhas forças espirituais, e pedir a Deus, cedo demais, e presunçosamente demais, um estado corporal no qual eu não poderia justificar a bondade divina, o que, em vez de servir para meu avanço, prolongaria minha estada na terra ou em outro lugar, no caso de eu falhar.”Para nos conformarmos ao seu desejo de ser evocado o mais cedo possível depois de sua morte, fomos à casa mortuária com alguns membros da Sociedade, e, na presença do corpo, a conversa seguinte ocorreu uma hora antes da inumação. Tínhamos aí um duplo objetivo, o de cumprir uma última vontade, e o de observar uma vez mais a situação da alma num momento tão próximo da morte, e isso num homem eminentemente inteligente e esclarecido, e profundamente penetrado das verdades espíritas; tínhamos que constatar a influência dessas crenças sobre o estado do Espírito, a fim de perceber suas primeiras impressões. Nossa expectativa não se enganou; o Sr. Sanson descreveu com perfeita lucidez o instante da transição; ele se viu morrer e se viu renascer, circunstância pouco comum, e que se devia à elevação de seu Espírito.
**I**
(Câmara mortuária, 23 de abril de 1862.)
1. Evocação. - Venho ao vosso apelo para cumprir minha promessa.2. Meu caro senhor Sanson, é para nós um dever e um prazer evocar-vos o mais cedo possível depois de vossa morte, assim como desejastes. – R. É uma graça especial de Deus que permite ao meu Espírito poder se comunicar; agradeço-vos vossa boa vontade; mas estou fraco e tremo.3. Estáveis tão doente que podemos, penso eu, perguntar-vos como estais agora. Ainda sentis dores? Que sensação experimentais comparando vossa situação presente com a de há dois dias? – R. Minha posição é bem feliz, pois não sinto mais nada de minhas antigas dores; estou regenerado e novo em folha, como dizeis aí. A transição da vida terrestre à vida dos Espíritos tinha no início tornado tudo incompreensível para mim, pois ficamos às vezes vários dias sem recuperar nossa lucidez; mas, antes de morrer, fiz uma prece a Deus e lhe pedi para poder falar com aqueles que amo, e Deus ouviu-me.4. Ao fim de quanto tempo recuperastes a lucidez de vossas ideias? – R. Ao fim de oito horas; Deus, repito-vos, me dera um sinal de sua bondade; ele me julgara suficientemente digno, e nunca poderei agradecer-lhe o bastante.5. Estais bem certo de não ser mais do nosso mundo, e em que o constatais? – R. Oh! Decerto que não, não sou mais do vosso mundo; mas estarei sempre perto de vós para vos proteger e apoiar, a fim de pregar a caridade e a abnegação que foram os guias da minha vida; e depois, ensinarei a fé verdadeira, a fé espírita, que deve reerguer a crença do justo e do bom; estou forte e muito forte, transformado, numa palavra; vós não reconheceríeis mais o velhote enfermo que devia esquecer tudo, deixando longe de si todo prazer, toda alegria. Sou Espírito; minha pátria é o espaço, e meu futuro, Deus, que irradia na imensidão. Gostaria muito de poder falar com meus filhos, pois lhes ensinaria tudo aquilo que eles sempre tiveram a má vontade de não acreditar.6. Que efeito vos faz experimentar a visão de vosso corpo, aqui ao lado? – R. Meu corpo, pobre e ínfimo resto mortal, tu deves ir para o pó, e eu guardo a boa recordação de todos aqueles que me estimavam. Olho essa pobre carne deformada, morada do meu espírito, prova de tantos anos! Obrigado, meu pobre corpo! Purificaste meu Espírito, e o sofrimento dez vezes santo deu-me um lugar bem merecido, visto que encontro imediatamente a faculdade de vos falar.7. Conservastes vossas ideias até o último momento? – R. Sim, meu Espírito conservou suas faculdades; eu não via mais, mas pressentia; toda a minha vida se desenrolou diante da minha recordação, e meu último pensamento, minha última prece foi poder falar-vos, o que estou fazendo; e depois pedi a Deus que vos protegesse, a fim de que o sonho da minha vida fosse realizado.8. Tivestes consciência do momento em que vosso corpo deu o último suspiro? O que se passou convosco nesse momento? Que sensação experimentastes? – R. A vida se rompe e a visão, ou melhor, a visão do Espírito se extingue; encontra-se o vazio, o desconhecido, e, levado por não sei qual prestígio, encontramo-nos num mundo onde tudo é alegria e grandeza. Eu não sentia mais, não me dava conta, no entanto uma felicidade inefável me plenificava; não sentia mais o peso da dor.9. Tendes conhecimento... (do que me proponho a ler sobre vosso túmulo?)Observação: Mal as primeiras palavras da pergunta foram pronunciadas e o Espírito responde antes de acabar. Ademais, ele responde, e sem pergunta formulada, a uma discussão que se levantara entre os assistentes, sobre a oportunidade de ler essa comunicação no cemitério, devido às pessoas que poderiam não compartilhar essas opiniões.R. Oh! Meu amigo, eu o sei, pois vos vi ontem, e vejo-vos hoje; minha satisfação é bem grande!...Obrigado! obrigado! Falai, a fim de que me compreendam e que vos estimem! Não temais nada, pois respeita-se a morte; falai portanto, a fim de que os incrédulos tenham fé. Adeus; falai; coragem, confiança, e que meus filhos possam se converter a uma crença reverenciada!J. SANSON.
Durante a cerimônia do cemitério, ele ditou as palavras seguintes:Que a morte não vos apavore, meus amigos; ela é uma etapa para vós, se soubestes bem viver; ela é uma bem-aventurança, se houverdes merecido dignamente e cumprirdes bem vossas provas. Repito-vos: Coragem e boa vontade! Não atribuais senão um valor medíocre aos bens da terra, e sereis recompensados; não se pode gozar demasiado, sem privar outros do bem-estar, e sem se fazer moralmente um mal imenso. Que a terra me seja leve!II
**II**
(Sociedade Espírita de Paris, 25 de abril de 1862.)
1. Evocação. – R. Meus amigos, estou perto de vós.2. Estamos muito felizes pela conversa que tivemos convosco no dia do vosso sepultamento, e visto que vós o permitis, ficaremos encantados de completá-la para nossa instrução. – R. Estou completamente preparado, feliz que penseis em mim.3. Tudo aquilo que pode nos esclarecer sobre o estado do mundo invisível e fazer-nos compreendê-lo é um alto ensinamento, porque é a ideia falsa que se faz dele que conduz quase sempre à incredulidade. Não fiqueis então surpreendido com as perguntas que poderemos dirigir-vos. – R. Não ficarei espantado, e espero vossas perguntas.4. Vós descrevestes com uma luminosa claridade a passagem da vida à morte; dissestes que no momento em que o corpo dá o último suspiro, a vida se rompe, e a vista do Espírito se extingue. Esse momento é acompanhado por uma sensação penosa, dolorosa? – R. Sem dúvida, pois a vida é uma sucessão contínua de dores, e a morte é o complemento de todas as dores; daí um dilaceramento violento, como se o Espírito tivesse de fazer um esforço sobre-humano para escapar de seu invólucro, e é esse esforço que absorve todo nosso ser e lhe faz perder o conhecimento do que ele se torna.Observação: Esse caso não é geral. A experiência prova que muitos Espíritos desmaiam antes de expirar, e que naqueles que chegaram a um certo grau de desmaterialização, a separação se opera sem esforços.5. Sabeis se há Espíritos para os quais esse momento é mais doloroso? Ele é mais penoso, por exemplo, para o materialista, para aquele que acredita que tudo acaba nesse momento para ele? – R. Isso é certo, pois o Espírito preparado já esqueceu o sofrimento, ou melhor, ele está habituado a ele, e a quietude com a qual vê a morte impede-o de sofrer duplamente, porque sabe o que o aguarda. A pena moral é a mais forte, e sua ausência no instante da morte é um alívio bem grande. Aquele que não crê parece-se com o condenado à pena capital e cujo pensamento vê a faca e o desconhecido. Há semelhança entre essa morte e a do ateu.6. Há materialistas bastante endurecidos para crer seriamente, nesse momento supremo, que vão ser mergulhados no nada? – R. Sem dúvida, até a última hora há os que creem no nada; mas, no momento da separação, o Espírito tem um retorno profundo; a dúvida toma conta dele e tortura-o, pois ele se pergunta o que se vai tornar; ele quer perceber algo e não pode. A separação não se pode fazer sem essa impressão. Observação: Um Espírito nos deu, numa outra circunstância, o seguinte quadro do fim do incrédulo:“O incrédulo endurecido experimenta nos últimos momentos as angústias desses pesadelos terríveis onde se está à beira de um precipício, prestes a cair no abismo; fazem-se inúteis esforços para fugir, e não se pode andar; quer-se agarrar-se a algo, alcançar um ponto de apoio, e sente-se escorregar; quer-se chamar e não se consegue articular nenhum som; é então que se vê o moribundo torcer, crispar as mãos e dar gritos abafados, sinais certos do pesadelo do qual é presa. No pesadelo comum, o despertar tira-vos da agitação, e vós vos sentis felizes por reconhecer que era só um sonho; mas o pesadelo da morte se prolonga frequentemente por muito tempo, até anos, além da morte, e o que torna a sensação ainda mais penosa para o Espírito, são as trevas em que por vezes ele está mergulhado.”7. Dissestes que no momento de morrer não víeis mais, mas que pressentíeis. Não víeis mais corporalmente, isso se compreende; mas, antes que a vida se extinguisse, entrevíeis já a claridade do mundo dos Espíritos?
– R. É o que eu disse anteriormente: o instante da morte dá a clarividência ao Espírito; os olhos não veem mais, mas o Espírito, que possui uma visão bem mais profunda, descobre instantaneamente um mundo desconhecido, e aparecendo-lhe subitamente a verdade, dá-lhe, momentaneamente é certo, ou uma alegria profunda, ou uma dor inexprimível, segundo o estado de sua consciência e a recordação de sua vida passada. Observação: Trata-se do instante que precede aquele em que o Espírito perde conhecimento, o que explica o emprego da palavra momentaneamente, pois as mesmas impressões agradáveis ou penosas continuam ao despertar.8. Tende a bondade de nos dizer o que, no instante em que vossos olhos se reabriram à luz, vos impressionou, o que vistes. Tende a bondade de nos descrever, se for possível, o aspecto das coisas que se ofereceram a vós.
– R. Assim que pude voltar a mim, e ver o que tinha diante dos olhos, estava como ofuscado, e não me dava conta, porque a lucidez não volta instantaneamente. Mas Deus, que me deu um sinal profundo de sua bondade, permitiu que eu recuperasse minhas faculdades. Vi-me rodeado de inúmeros e fiéis amigos. Todos os Espíritos protetores que vêm nos assistir, me rodeavam e me sorriam; uma felicidade sem igual os animava, e eu mesmo, forte e de boa saúde, podia, sem esforço, me transportar através do espaço. O que eu vi não tem nome nas línguas humanas.
Virei, ademais, falar-vos mais amplamente de todas as minhas venturas, sem ultrapassar porém o limite que Deus exige. Sabei que a felicidade, tal como a entendeis entre vós, é uma ficção. Vivei sabiamente, santamente, no espírito de caridade e de amor, e tereis preparado para vós impressões que vossos maiores poetas não saberiam descrever.
Observação: Os contos de fadas estão sem dúvida cheios de coisas absurdas; mas não seriam eles, em alguns pontos, a pintura do que acontece no mundo dos Espíritos? Não se parece o relato do Sr. Sanson com o de um homem que, adormecido numa pobre e obscura cabana, despertasse num palácio esplêndido, no meio de uma corte brilhante?
**III
9. Com que aspecto os Espíritos se apresentaram a vós? Com o da forma humana?– R. Sim, meu caro amigo, os Espíritos nos haviam ensinado na terra que eles conservavam no outro mundo a forma transitória que tinham tido na terra, e é a verdade. Mas que diferença entre a máquina informe que se arrasta penosamente com seu cortejo de provas, e a fluidez maravilhosa do corpo dos Espíritos! A feiura não existe mais, pois os traços perderam a dureza de expressão que forma o caráter distintivo da raça humana. Deus beatificou todos aqueles corpos graciosos, que se movem com todas as elegâncias da forma; a linguagem tem entonações intraduzíveis para vós, e o olhar tem a profundidade de uma estrela. Tentai, pelo pensamento, ver o que Deus pode fazer na sua onipotência, ele que é o arquiteto dos arquitetos, e tereis uma fraca ideia da forma dos Espíritos.10. Quanto a vós, como vos vedes? Reconheceis em vós uma forma limitada, circunscrita, embora fluídica? Sentis em vós uma cabeça, um tronco, braços, pernas? – R. O Espírito, tendo conservado sua forma humana, mas divinizada, idealizada, tem, sem contradita, todos os membros de que falais. Sinto em mim perfeitamente pernas e dedos, pois podemos, por nossa vontade, aparecer-vos ou pressionar-vos as mãos. Estou perto de vós e apertei a mão de todos os meus amigos, sem que eles tivessem tido consciência disso; nossa fluidez pode estar em toda parte sem obstruir o espaço, sem dar nenhuma sensação, se for esse o nosso desejo. Neste momento, vós estais de mãos cruzadas e eu tenho as minhas nas vossas. Digo-vos: eu vos amo, mas meu corpo não ocupa lugar, a luz o atravessa, e o que chamaríeis um milagre, se ele fosse visível, é para os Espíritos a ação contínua de todos os instantes.A visão dos Espíritos não tem relação com a visão humana, assim como seu corpo não tem semelhança real, pois tudo é alterado no conjunto e no fundo. O Espírito, repito-vos, tem uma perspicácia divina que se estende a tudo, visto que pode adivinhar mesmo vosso pensamento; também pode, apropriadamente, tomar a forma que melhor pode trazê-lo de volta às vossas recordações. Mas, de fato, o Espírito superior que acabou suas provas, gosta da forma que pôde conduzi-lo para perto de Deus.11. Os Espíritos não têm sexo; no entanto, como ainda há poucos dias éreis homem, tendes em vosso novo estado mais da natureza masculina que da natureza feminina? Acontece o mesmo a um Espírito que tivesse deixado seu corpo há muito tempo?
– R. Não fazemos questão de ser de natureza masculina ou feminina: os Espíritos não se reproduzem. Deus cria-os à sua vontade, e se, para seus desígnios maravilhosos, ele quis que os Espíritos se reencarnem na terra, ele precisou acrescentar a reprodução das espécies pelo macho e a fêmea. Mas, vós o sentis, sem que seja preciso nenhuma explicação, os Espíritos não podem ter sexo. Observação: Sempre foi dito que os Espíritos não têm sexo; os sexos não são necessários senão para a reprodução dos corpos; pois não se reproduzindo os Espíritos, os sexos seriam para eles inúteis. Nossa pergunta não tinha o objetivo de constatar o fato, mas devido à morte recente do Sr. Sanson, queríamos saber se lhe restava uma impressão de seu estado terrestre. Os Espíritos purificados dão-se perfeitamente conta de sua natureza, mas entre os Espíritos inferiores, não desmaterializados, há muitos que creem ser ainda o que eram na terra, e conservam as mesmas paixões e os mesmos desejos; estes últimos se creem ainda homens ou mulheres, e eis porque há os que disseram que os Espíritos têm sexos. É assim que certas contradições provêm do estado mais ou menos avançado dos Espíritos que se comunicam; o erro não é dos Espíritos, mas daqueles que os interrogam e não se dão ao trabalho de aprofundar as questões.12. Que aspecto vos apresenta a sessão? É ela para vossa nova visão o que vos parecia durante a vida? As pessoas têm para vós a mesma aparência? Tudo é igualmente claro, igualmente nítido?
– R. Bem mais claro, pois posso ler no pensamento de todos, e estou bem feliz pela boa impressão que me deixa a boa vontade de todos os Espíritos reunidos. Desejo que o mesmo entendimento possa existir não só em Paris, pela reunião de todos os grupos, mas também em toda a França, onde grupos se separam e se invejam, impelidos por Espíritos trapalhões que gozam com a desordem, enquanto o Espiritismo deve ser o esquecimento completo, absoluto do eu.13. Dizeis que ledes em nosso pensamento; poderíeis fazer-nos compreender como se opera essa transmissão de pensamento?
– R. Isso não é fácil; para vos dizer, vos explicar esse prodígio singular da visão dos Espíritos, seria preciso abrir-vos todo um arsenal de agentes novos, e seríeis tão sábios quanto nós, o que não é possível, visto que vossas faculdades são limitadas pela matéria. Paciência! Tornai-vos bons, e chegareis lá; não tendes atualmente senão o que Deus vos concede, mas com a esperança de progredir continuamente; mais tarde sereis como nós. Tentai então morrer bem para saber muito. A curiosidade, que é o estimulante do homem pensante, vos conduz tranquilamente até a morte, reservando-vos a satisfação de todas as vossas curiosidades passadas, presentes e futuras. Enquanto se espera, dir-vos-ei para responder bem ou mal à vossa questão: O ar que vos rodeia, impalpável como nós, leva o caráter de vosso pensamento; o hálito que exalais é, por assim dizer, a página escrita de vossos pensamentos; eles são lidos, comentados pelos Espíritos que se chocam convosco incessantemente; eles são os mensageiros de uma telegrafia divina a que nada escapa.
**A morte do Justo**
Após a primeira evocação do Sr. Sanson, feita na Sociedade de Paris, um Espírito deu, com esse título, a comunicação seguinte: A morte do homem do qual vos ocupais neste momento foi a do justo; ou seja, acompanhada de calma e de esperança. Como o dia sucede naturalmente à aurora, a vida espírita sucedeu para ele à vida terrestre, sem abalo, sem dilaceramento, e seu último suspiro se exalou num hino de reconhecimento e de amor. Quão poucos atravessam assim essa rude passagem! Quão poucos, após a embriaguez e os desesperos da vida, concebem o ritmo harmonioso das esferas! Assim como o homem saudável, mutilado por uma bala, ainda tem dor nos membros dos quais está separado, assim a alma do homem que morre sem fé e sem esperança, se dilacera e palpita escapando do corpo, e lançando-se, inconsciente de si mesma, no espaço.Rezai por essas almas perturbadas; rezai por tudo o que sofre; a caridade não se restringe à humanidade visível: ela socorre e consola também os seres que povoam o espaço. Tivestes a prova tocante disso pela conversão tão súbita desse Espírito enternecido pelas preces espíritas feitas no túmulo do homem de bem, que deveis interrogar, e que deseja vos fazer progredir no santo caminho. *O amor não tem limites; ele preenche o espaço, dando e recebendo sucessivamente suas divinas consolações. O mar se desdobra numa perspectiva infinita; seu limite último parece confundir-se com o céu, e o Espírito fica deslumbrado pelo magnífico espetáculo dessas duas grandezas. Assim o amor, mais profundo do que as vagas, mais infinito do que o espaço, deve reunir-vos a todos, vivos e Espíritos, na mesma comunhão de caridade, e operar a admirável fusão do que é finito e do que é eterno.GEORGES.________________________________________* Alusão ao Espírito de Bernardo, que se manifestou espontaneamente no dia das exéquias do Sr. Sanson. (Ver a Revista de maio de 1862, p. 132.)
**Sr. Jobard**
Diretor do Museu da Indústria de Bruxelas; nascido em Baissey (Haute- Marne); morto em Bruxelas, de um ataque de apoplexia fulminante, em 27 de outubro de 1861, com a idade de sessenta e nove anos.
I
O Sr. Jobard era presidente honorário da Sociedade Espírita de Paris; pretendíamos evocá-lo na sessão de 8 de novembro, quando ele antecipou esse desejo dando espontaneamente a comunicação seguinte: Eis-me aqui, eu que iríeis evocar e que quero me manifestar primeiro a esse médium que solicitei em vão até agora.Quero primeiro contar-vos minhas impressões no momento da separação da minha alma: senti um abalo extraordinário, lembrei-me subitamente de meu nascimento, minha juventude, minha idade madura; toda a minha vida me veio nitidamente à lembrança. Não sentia senão um piedoso desejo de me encontrar nas regiões reveladas pela nossa querida crença; depois, todo esse tumulto se apaziguou. Eu estava livre e meu corpo jazia inerte. Ah! meus caros amigos, que inebriante é tirar o peso do corpo! Que inebriante abarcar o espaço! Não acrediteis porém que eu me tenha tornado subitamente um eleito do Senhor; não, estou entre os Espíritos que, tendo abarcado um pouco, devem ainda aprender muito. Não tardei a me lembrar de vós, meus irmãos de exílio, e, asseguro-vos, toda a minha simpatia, todos os meus votos vos envolveram.Quereis saber quais foram os Espíritos que me receberam? Quais foram minhas impressões? Meus amigos foram todos aqueles que evocamos, todos os irmãos que compartilharam nossos trabalhos. Eu vi o esplendor, mas não posso descrevê-lo. Apliquei-me a discernir o que era verdadeiro nas comunicações, pronto a corrigir todas as asserções errôneas; pronto, enfim, a ser o cavaleiro da verdade no outro mundo, como o fui no vosso.
Jobard.
1. Quando em vida, havíeis nos recomendado chamar-vos quando tivésseis deixado a terra; fazemo-lo, não só para nos conformarmos ao vosso desejo, mas sobretudo para vos renovar o testemunho de nossa viva e sincera simpatia, e também no interesse de nossa instrução, pois vós, melhor do que ninguém, sois capaz de nos dar informações precisas sobre o mundo em que vos encontrais. Ficaremos então felizes se aceitardes responder a nossas perguntas. – R. Nesta hora, o que importa mais é a vossa instrução. Quanto à vossa simpatia, eu a vejo, e não ouço mais sua expressão somente pelos ouvidos, o que constitui um grande progresso.2. Para fixar nossas ideias, e não falar no vazio, perguntar-vos-emos primeiro em que lugar estais aqui, e como nós vos veríamos se vos pudéssemos ver? – R. Estou perto do médium; vós me veríeis na aparência do Jobard que se sentava à vossa mesa, pois vossos olhos mortais não abertos não podem ver os Espíritos a não ser em sua aparência mortal.3. Teríeis a possibilidade de vos tornar visível para nós, e se não o podeis, o que se opõe a isso? – R. A disposição que vos é pessoal. Um médium vidente ver-me-ia: os outros não me veem.4. Este lugar é o que ocupáveis quando vivo, quando assistíeis as nossas sessões, e que vos reservamos. Aqueles portanto que vos viram ali, devem imaginar vos ver ali tal como éreis então. Se não estais ali com vosso corpo material, estais com vosso corpo fluídico que tem a mesma forma; se não vos vemos com os olhos do corpo, vemos com os do pensamento; se não podeis vos comunicar pela fala, podeis fazê-lo pela escrita com a ajuda de um intérprete; nossas relações convosco não estão pois interrompidas de modo nenhum pela vossa morte, e podemos conversar convosco tão facilmente e tão completamente quanto outrora. É assim que as coisas acontecem? – R. Sim, e vós o sabeis há muito tempo. Este lugar, eu o ocuparei muitas vezes, e mesmo sem o vosso conhecimento, pois meu Espírito habitará entre vós.
Observação: Chamamos a atenção para esta última frase: “Meu Espírito habitará entre vós.” Na circunstância presente, não é uma figura, mas uma realidade. Pelo conhecimento que o Espiritismo nos dá da natureza dos Espíritos, sabe-se que um Espírito pode estar entre nós, não só pelo pensamento, mas em pessoa, com a ajuda de seu corpo etéreo, que faz dele uma individualidade distinta. Um Espírito pode portanto morar entre nós após a morte, tanto quanto quando seu corpo vivia; e melhor ainda, visto que pode vir e ir-se embora quando quer. Temos assim uma multidão de comensais invisíveis, uns indiferentes, outros que nos são apegados pela afeição; é sobretudo a estes últimos que se aplica esta frase: “Eles habitam entre nós”, que pode traduzir-se assim: Eles nos assistem, nos inspiram e nos protegem.5. Não há muito tempo estáveis sentado nesse mesmo lugar; as condições em que estais agora vos parecem estranhas? Que efeito essa mudança produz em vós? – R. Estas condições não me parecem estranhas, pois meu Espírito desencarnado goza de uma nitidez que não deixa na sombra nenhuma das questões que ele encare.6. Lembrais-vos de ter estado nesse mesmo estado antes de vossa última existência, e encontrais aí algo mudado? – R. Lembro-me de minhas existências anteriores, e acho que estou aperfeiçoado. Vejo e comparo-me ao que vejo. Na ocasião de minhas encarnações anteriores, Espírito perturbado, só me apercebia das lacunas terrestres.7. Lembrais-vos de vossa penúltima existência, daquela que precedeu o Sr. Jobard? – R. Em minha penúltima existência eu era operário mecânico, roído pela miséria e o desejo de aperfeiçoar meu trabalho. Realizei, sendo Jobard, os sonhos do pobre operário, e louvo a Deus cuja bondade infinita fez germinar a planta cuja semente ele depositara no meu cérebro.8. Já vos comunicastes em outro lugar? – R. Comuniquei-me pouco, ainda; em muitos lugares um Espírito tomou meu nome; às vezes eu estava perto dele sem poder fazê-lo diretamente; minha morte é tão recente que pertenço ainda a certas influências terrestres. É preciso uma perfeita simpatia para que eu possa expressar meu pensamento. Dentro em pouco, agirei indistintamente; ainda não o posso, repito. Quando um homem um pouco conhecido morre, é chamado de todos os lados; mil Espíritos se apressam a revestir sua individualidade; foi o que me aconteceu em várias circunstâncias. Asseguro-vos que logo depois da libertação, poucos Espíritos podem se comunicar, mesmo a um médium preferido.9. Vedes os Espíritos que estão aqui conosco?R. Vejo sobretudo Lázaro e Erasto; depois, mais afastado, o Espírito de verdade planando no espaço; depois uma multidão de Espíritos amigos que vos rodeiam, apressados e benevolentes. Ficai felizes, amigos, pois boas influências vos defendem das calamidades do erro.10. Enquanto vivo, compartilháveis a opinião que foi emitida sobre a formação da terra pela incrustação de quatro planetas que teriam sido soldados juntos. Ainda tendes a mesma crença? – R. É um erro. As novas descobertas geológicas provam as convulsões da terra e sua formação sucessiva. A terra, como os outros planetas, teve sua vida própria, e Deus não teve necessidade dessa grande desordem ou dessa agregação de planetas. A água e o fogo são os únicos elementos orgânicos da terra.11. Pensáveis também que os homens podiam entrar em catalepsia durante um tempo ilimitado, e que o gênero humano foi trazido dessa maneira para a terra? – R. Ilusão de minha imaginação, que ultrapassava sempre o alvo. A catalepsia pode ser longa, mas não indeterminada. Tradições, lendas aumentadas pela imaginação oriental. Meus amigos, sofri muito repassando as ilusões com as quais alimentei meu espírito: não vos enganeis. Eu aprendera muito, e, posso dizê-lo, minha inteligência, prestes a se apropriar desses vastos e diversos estudos, mantivera de minha última encarnação o amor do maravilhoso e do composto tirado das imaginações populares.Ainda me ocupei pouco das questões puramente intelectuais no sentido em que vós o tomais. Como poderia eu, deslumbrado, arrastado como sou pelo maravilhoso espetáculo que me rodeia? O vínculo do Espiritismo, mais poderoso do que vós homens podeis conceber, é o único que pode atrair meu ser para essa terra que abandono, não com alegria, seria uma impiedade, mas com o profundo reconhecimento da libertação.Por ocasião da subscrição aberta pela Sociedade em benefício dos operários de Lyon, em fevereiro de 1862, um membro entregou 50 francos, dos quais 25 por sua própria conta, e 25 em nome do Sr. Jobard. Este último deu a esse respeito a comunicação seguinte: Sinto-me orgulhoso e reconhecido por não ter sido esquecido entre meus irmãos espíritas. Obrigado ao coração generoso que vos trouxe a oferenda que eu vos teria dado se ainda morasse no vosso mundo. Neste em que habito agora, não se precisa de dinheiro; precisei, portanto, tirar da bolsa da amizade para dar provas materiais de que me tocava o infortúnio de meus irmãos de Lyon. Bravos trabalhadores, que ardentemente cultivais a vinha do Senhor, quanto deveis acreditar que a caridade não é uma palavra vã, visto que pequenos e grandes vos mostraram simpatia e fraternidade. Estais no grande caminho humanitário do progresso; possa Deus vos manter nele, e possais vós ser mais felizes; os Espíritos amigos vos apoiarão e triunfareis! Começo a viver espiritualmente, mais apaziguado e menos perturbado pelas evocações fora do caminho trilhado que choviam sobre mim. A moda reina mesmo sobre os espíritos; quando a moda Jobard der lugar a outra e eu entrar no nada do esquecimento humano, pedirei então aos meus amigos sérios, e entendo por isso aqueles cuja inteligência não esquece, pedir-lhes-ei que me evoquem; então aprofundaremos questões t ratadas demasiado superficialmente, e o vosso Jobard, completamente transfigurado, poderá vos ser útil, o que ele deseja de todo o coração. JOBARD.Após os primeiros tempos dedicados a tranquilizar seus amigos, o Sr. Jobard obteve lugar reservado entre os Espíritos que trabalham ativamente na renovação social, aguardando seu próximo retorno ao meio dos vivos para aí participar mais diretamente. Desde essa época, ele deu frequentemente à Sociedade de Paris, da qual faz questão de continuar membro, comunicações de uma incontestável superioridade, sem renunciar à originalidade e aos ditos espirituosos que constituíam o fundo de seu caráter, e permitem reconhecê-lo antes que tenha dado sua assinatura.
**Samuel Philippe.**
Samuel Philippe é um homem de bem em todas as acepções da palavra; ninguém se lembrava de tê-lo visto cometer uma má ação, nem ter causado voluntariamente prejuízo a quem quer que seja. De um devotamento sem limites para com seus amigos, sempre se tinha certeza de encontrá-lo pronto quando se tratava de prestar um favor, mesmo a despeito de seus interesses. Penas, fadigas, sacrifícios, nada lhe custava para ser útil, e ele o fazia naturalmente, sem ostentação, espantando-se de que isso pudesse ser um mérito. Nunca quis mal àqueles que lhe haviam feito mal, e punha tanta solicitude a obsequiá-los como se lhe tivessem feito bem. Quando lidava com ingratos, dizia: “Não é a mim que se deve lamentar, mas a eles.” Embora muito inteligente e dotado de muito espírito natural, sua vida, toda de labor, fora obscura e semeada de rudes provas. Era uma dessas naturezas de elite que florescem à sombra, da qual ninguém fala, e cujo esplendor não se reflete na terra. Extraíra do conhecimento do Espiritismo uma fé ardente na vida futura e uma grande resignação aos males da vida terrestre. Morreu em dezembro de 1862, com a idade de 55 anos, em consequência de uma dolorosa doença, sinceramente lamentado por sua família e alguns amigos. Foi evocado vários meses após sua morte.
P. Tendes uma recordação nítida de vossos últimos instantes na terra? – R. Perfeitamente; essa recordação voltou-me pouco a pouco, pois naquele momento minhas ideias ainda eram confusas.
P. Gostaríeis, para nossa instrução e pelo interesse que vossa vida exemplar nos inspira, de descrever-nos como se efetuou para vós a passagem da vida corporal à vida espiritual, assim como vossa situação no mundo dos Espíritos? – R. De bom grado; esse relato não será bom apenas para vós, será também para mim. Transportando meus pensamentos à terra, a comparação me faz apreciar melhor ainda a bondade do Criador.
Sabeis de quantas tribulações minha vida foi semeada; nunca me faltou coragem na adversidade, graças a Deus! e hoje congratulo-me por isso. Quantas coisas teria perdido se tivesse cedido ao desalento! Tremo só de pensar que, por minha fraqueza, o que suportei teria sido sem proveito e teria que recomeçar. Ó meus amigos! Que vós possais vos penetrar desta verdade; dela depende vossa felicidade futura. Decerto não é caro demais pagar essa felicidade com alguns anos de sofrimento. Se soubésseis quão pouco são alguns anos ante o infinito!
Se minha última existência teve algum mérito aos vossos olhos, não teríeis dito o mesmo das que a precederam. Não foi senão à custa de trabalho sobre mim mesmo que fiz de mim o que sou agora. Para apagar os últimos traços de minhas faltas anteriores, precisava ainda suportar essas últimas provas que aceitei voluntariamente. Extraí da firmeza de minhas resoluções a força de suportá-las sem murmúrio. Hoje bendigo essas provas; por elas rompi com o passado, que é para mim apenas uma recordação, e posso doravante contemplar com legítima satisfação o caminho que percorri.
Ó vós que me fizestes sofrer na terra, que fostes duros e mal intencionados comigo, que me humilhastes e me mergulhastes na amargura,cuja má fé me reduziu muitas vezes às mais duras privações, não só eu vos perdoo, mas vos agradeço. Querendo fazer-me mal, não suspeitáveis de que me faríeis tanto bem. Porém, é verdade que é em grande parte a vós que devo a felicidade de que gozo, pois fornecestes-me a ocasião de perdoar e de pagar o mal com o bem. Deus colocou-vos no meu caminho para pôr à prova a minha paciência e me exercitar na prática da caridade mais difícil: a do amor por seus inimigos. Não vos impacienteis com esta digressão; chego ao que me perguntais.
Embora sofrendo cruelmente na minha última doença, não tive agonia; a morte veio, para mim, como o sono, sem luta, sem abalos. Não tendo apreensão quanto ao futuro, não me agarrei à vida; não tive, por conseguinte, de me debater com as últimas opressões; a separação operou-se sem esforços, sem dor, e sem que eu me tivesse apercebido. Ignoro quanto tempo durou esse último sono, mas foi curto. O despertar foi de uma calma que contrastava com meu estado anterior; não sentia mais dor e regozijava-me por isso; queria levantar-me, andar, mas um entorpecimento que não tinha nada de desagradável, que tinha mesmo certo encanto, me retinha, e eu me abandonava a ele com uma espécie de volúpia sem me dar conta de minha situação e sem suspeitar de que deixara a terra. O que me rodeava me aparecia como num sonho. Vi minha mulher e alguns amigos de joelhos no quarto e chorando, e disse-me que sem dúvida eles acreditavam que eu morrera; quis desenganá-los, mas não consegui articular nenhuma palavra, de onde concluí que sonhava. O que me confirmou nessa ideia foi ver-me rodeado por várias pessoas queridas, mortas há muito tempo, e outras que não reconheci imediatamente, e que pareciam velar por mim e aguardar meu despertar. Esse estado foi entremeado por instantes de lucidez e de sonolência, durante os quais eu recuperava e perdia alternadamente a consciência de meu eu. Pouco a pouco minhas ideias adquiriram mais nitidez; a luz que eu entrevia apenas através de um nevoeiro fez-se mais brilhante; então comecei a me reconhecer e compreendi que não pertencia mais ao mundo terrestre. Se não tivesse conhecido o Espiritismo, a ilusão se teria sem dúvida prolongado por muito mais tempo.
Meus restos mortais ainda não estavam sepultados; considerei-os com compaixão, congratulando-me por estar finalmente livre deles. Estava tão feliz por estar livre! Respirava à vontade como alguém que sai de uma atmosfera repugnante; uma indizível sensação de felicidade penetrava todo o meu ser; a presença daqueles que amara me enchia de alegria; não me surpreendia nada vê-los; parecia-me muito natural, mas parecia-me revê-los depois de uma longa viagem. Uma coisa me espantou no começo, era que nos compreendíamos sem articular nenhuma palavra; nossos pensamentos se transmitiam unicamente pelo olhar e como por uma penetração fluídica.
No entanto, ainda não estava completamente livre das ideias terrestres; a recordação do que eu suportara me voltava de tempos a tempos à memória, como para me fazer apreciar melhor minha nova situação. Eu sofrera corporalmente, mas sobretudo moralmente; fora presa da malevolência, dessas mil perplexidades mais penosas talvez do que as desgraças reais, porque elas causam uma ansiedade perpétua. A impressão delas não estava inteiramente apagada, e às vezes eu me perguntava se estava realmente desembaraçado delas; parecia-me ouvir ainda certas vozes desagradáveis; temia os embaraços que me tinham atormentado tantas vezes, e tremia contra vontade; eu me apalpava, por assim dizer, para me assegurar de que não era joguete de um sonho; e quando adquirira a certeza de que tudo aquilo acabara mesmo, parecia-me que um peso enorme me era retirado. É portanto bem verdade, dizia-me eu, que estou enfim livre de todas aquelas preocupações que fazem o tormento da vida, e dava graças a Deus por isso. Era como um pobre que ganha de repente uma grande fortuna; durante algum tempo, ele duvida da realidade e sente as apreensões da necessidade. Ó! se os homens compreendessem a vida futura, que força, que coragem essa convicção não lhes daria na adversidade! O que eles não fariam, enquanto estão na terra, para obter aí a felicidade que Deus reserva aos seus filhos que foram dóceis às suas leis! Veriam quão pouca coisa são os gozos que invejam comparados com os que negligenciam!
P. Esse mundo tão novo para vós, e perto do qual o nosso é tão pouca coisa, os inúmeros amigos que aí reencontrastes vos fizeram perder de vista a vossa família e os vossos amigos na terra? – R. Se eu os tivesse esquecido, seria indigno da felicidade de que gozo; Deus não recompensa o egoísmo, ele o pune. O mundo onde estou pode me fazer desdenhar a terra, mas não os Espíritos que aí estão encarnados. Só entre os homens é que se vê a prosperidade fazer esquecer os companheiros de infortúnio. Vou frequentemente rever os meus; fico feliz pela boa recordação que guardaram de mim; seu pensamento me atrai para eles; assisto às suas conversas, alegro-me com suas alegrias, suas penas me entristecem, mas não é essa tristeza ansiosa da vida humana, porque compreendo que elas são apenas passageiras e são para o bem deles. Fico feliz de pensar que um dia eles virão para esta morada afortunada onde a dor é desconhecida. É para torná-los dignos dela que me aplico; esforço-me para lhes sugerir bons pensamentos, e sobretudo a resignação que eu mesmo tive à vontade de Deus. Minha maior pena é quando os vejo retardar esse momento por sua falta de coragem, seus murmúrios, a dúvida sobre o futuro, ou por alguma ação repreensível. Tento então desviá-los do mau caminho; se consigo, é uma grande felicidade para mim, e todos nos regozijamos aqui; se fracasso, digo-me com pesar: Mais um atraso para eles; mas consolo-me pensando que nem tudo está irremediavelmente perdido.
**Sr. Van Durst**
Antigo funcionário público, morto em Antuérpia em 1863, com a idade de oitenta anos.
Pouco tempo após sua morte, tendo um médium perguntado a seu guia espiritual se era possível evocá-lo, foi-lhe respondido:
“Esse Espírito sai lentamente de sua perturbação; ele já vos poderia responder, mas a comunicação dar-lhe-ia muita tristeza. Peço-vos então para aguardar ainda quatro dias, e ele vos responderá. Até lá ele saberá as boas intenções que expressastes a seu respeito, e virá a vós reconhecido e como bom amigo.” Quatro dias mais tarde o Espírito ditou o que se segue:
Meu amigo, minha vida teve um peso bem pequeno na balança da eternidade; no entanto estou longe de ser infeliz; estou na condição humilde, mas relativamente feliz daquele que fez pouco mal sem por isso visar a perfeição. Se há pessoas felizes numa pequena esfera, pois bem! faço parte delas. Lamento só uma coisa, não ter conhecido o que vós sabeis agora; minha perturbação teria sido menos longa e menos penosa. Ela foi grande, efetivamente: viver e não viver; ver seu corpo, estar fortemente apegado a ele, e, entretanto, não poder mais servir-se dele; ver aqueles que amamos e sentir extinguir-se o pensamento que nos liga a eles, como é terrível! Oh! que momento cruel! Que momento, quando o atordoamento se apodera de vós e vos sufoca! E um instante depois, trevas. Sentir, e um momento depois, ficar aniquilado. Quer-se ter a consciência de seu eu, e não se pode recuperá-la; não se é mais, e no entanto sente-se que se é; mas fica-se numa perturbação profunda! E depois, após um tempo inapreciável, tempo de angústias contidas, pois não se tem mais força para senti-las, após esse tempo que parece interminável, renascer lentamente para a existência; despertar num novo mundo! Não mais corpo material, não mais vida terrestre: a vida imortal! Não mais homens carnais, mas formas ligeiras, Espíritos que deslizam por todos os lados, giram em torno de vós e que não podeis abarcar todos com o olhar, pois é no infinito que eles flutuam! Ter diante de si o espaço e poder atravessá-lo unicamente pelo pensamento; comunicar-se pelo pensamento com tudo o que vos rodeia! Amigo, que vida nova!
Que vida brilhante! Que vida de regozijos!...
Salve, oh! Salve, eternidade que me conténs em teu seio!... Adeus, terra que me retiveste tanto tempo longe do elemento natural de minha alma! Não, não te quero mais, pois és a terra de exílio e tua maior felicidade não é nada! Mas se eu tivesse sabido o que vós sabeis, como essa iniciação à outra vida me teria sido mais fácil e mais agradável! Teria sabido antes de morrer o que tive de aprender mais tarde, no momento da separação, e minha alma ter-se-ia desprendido mais facilmente. Vós estais no caminho, mas nunca, nunca ireis bastante longe! Dizei-o a meu filho, mas dizei-lhe tanto, que ele creia e se instrua; então na sua chegada aqui não estaremos separados.
Adeus a todos, amigos, adeus; espero-vos, e durante o tempo em que estiverdes na terra, virei com frequência instruir-me convosco, pois ainda não sei tanto quanto vários dentre vós; mas aprenderei depressa aqui onde não tenho mais entraves que me retenham, e onde não tenho mais idade que debilite minhas forças. Aqui vive-se sem entrar em pormenores e avança-se, pois diante de si veem-se horizontes tão belos que se fica impaciente para abarcá-los. Adeus, deixo-vos, adeus.VAN DURST.
**Sixdeniers**
Homem de bem, morto por acidente, e conhecido pelo médium durante a vida.(Bordeaux, 11 de fevereiro de 1861.)P. Podeis dar-me alguns detalhes sobre a vossa morte? – R. Uma vez afogado, sim. – P. Por que não antes? – R. Tu os conheces. (O médium conhecia-os efetivamente.) – P. Tende a bondade de me descrever então vossas sensações após a morte.R. Fiquei muito tempo antes de me reconhecer, mas com a graça de Deus e a ajuda daqueles que me rodeavam, quando a luz se fez, fui inundado. Podes ter esperança: encontrarás sempre mais do que esperavas. Nada material; tudo impressiona os sentidos ocultos: o que nem o olho nem a mão podem tocar; compreendes-me? É uma admiração espiritual que ultrapassa vosso entendimento, porque não há palavras para explicá-lo: isso só se pode sentir com a alma. Meu despertar foi bem feliz. A vida é um desses sonhos que, apesar da ideia grotesca que se atribui a essa palavra, só posso qualificar de horrendo pesadelo. Sonha que estás encerrada numa masmorra infecta, que teu corpo roído pelos vermes, que se introduzem até a medula dos ossos, está suspenso sobre uma fornalha ardente; que tua boca ressecada não encontra nem mesmo ar para refrescá-la; que teu Espírito horrorizado vê apenas à tua volta monstros prestes a devorar-te; imagina por fim tudo o que o fantástico do sonho pode gestar de mais hediondo, de mais horrível, e sente-te transportada subitamente para um Éden delicioso. Desperta cercada por todos aqueles que amaste e choraste; vê à tua volta seus rostos adorados te sorrirem felizes; respira os perfumes mais suaves, refresca tua garganta seca na água da nascente; sente teu corpo elevado no espaço infinito que o carrega e embala como faz a brisa com uma flor desprendida do alto de uma árvore; sente-te envolta pelo amor de Deus como a criança que nasce é envolvida pelo amor da mãe, e não terás senão uma ideia imperfeita dessa transição. Tentei explicar-te a felicidade da vida que espera o homem após a morte de seu corpo, mas não pude. Explica-se o infinito àquele que tem os olhos fechados para a luz e cujos membros nunca puderam sair do círculo estreito em que estão encerrados? Para te explicar a felicidade eterna, dir-te-ei: ama! Pois só o amor pode fazer pressenti-lo; e quem diz amor, diz ausência de egoísmo.
P. Vossa posição foi excelente logo que entrastes no mundo dos Espíritos? – R. Não; tive de pagar a dívida do homem. Meu coração me fizera pressentir o porvir do Espírito, mas eu não tinha fé. Precisei expiar minha indiferença pelo meu Criador, mas sua misericórdia teve consideração pelo pouco bem que tinha podido fazer, pelas dores que eu experimentara com resignação apesar de meu sofrimento, e sua justiça que tem uma balança que os homens jamais compreenderão, pesou o bem com tanta bondade e amor, que o mal foi rapidamente apagado. P. Gostaríeis de me dar notícias de vossa filha? (morta quatro ou cinco anos depois do pai.) – R. Ela está em missão na vossa terra. P. Ela está feliz como criatura? Não quero fazer-vos uma pergunta indiscreta. – R. Sei-o bem; acaso não vejo teu pensamento como um quadro diante de meus olhos? Não, como criatura ela não está feliz, ao contrário; todas as misérias de vossa vida devem atingi-la; mas ela deve pregar o exemplo dessas grandes virtudes das quais fazeis palavras bombásticas; ajudá-la-ei, pois devo velar por ela; mas ela não terá grande dificuldade para ultrapassar os obstáculos; ela não está em expiação, mas em missão. Tranquiliza-te então por ela e obrigado pela lembrança.
Nesse momento o médium sente uma dificuldade para escrever, e diz: se for um Espírito sofredor que me detém, peço-lhe que escreva. – R. Uma desgraçada. P. Tende a bondade de me dizer vosso nome. – R. Valérie. P. Quereis dizer-me o que atraiu o castigo sobre vós? – R. Não. P. Arrependeis-vos de vossas faltas? – R. Tu o vês bem. P. Quem vos trouxe aqui? – R. Sixdeniers. P. Com que objetivo ele o fez? – R. Para que me ajudes. P. Fostes vós que me impedistes de escrever há pouco? – R. Ele me colocou no lugar dele. P. Que relação há entre vós? – R. Ele me conduz. P. Pedi-lhe que se junte a nós para a prece. – (Depois da oração, Sixdeniers continua:) Obrigado por ela; compreendeste, não te esquecerei; pensa nela. P. (A Sixdeniers). Como Espírito, tendes muitos Espíritos sofredores a guiar? – R. Não; mas tão logo reconduzimos um ao bem, pegamos outro, sem por isso abandonar os primeiros. P. Como podeis dar conta de uma vigilância que se deve multiplicar ao infinito com os séculos? – R. Compreende que aqueles que trouxemos de volta se purificam e progridem; portanto, eles nos dão menos trabalho; e ao mesmo tempo nós mesmos nos elevamos, e, ascendendo, nossas faculdades progridem, nosso poder irradia em proporção com nossa pureza. Observação. Os Espíritos inferiores são pois assistidos pelos bons Espíritos que têm a missão de guiá-los; essa tarefa não é exclusivamente entregue aos encarnados, mas estes devem concorrer para ela, porque é para eles um meio de avanço. Quando um Espírito inferior vem se atravessar numa boa comunicação, como no caso presente, não o faz sempre com uma boa intenção, mas os bons Espíritos o permitem, seja como prova, seja a fim de que aquele ao qual ele se dirige trabalhe em seu aperfeiçoamento. Sua persistência, é verdade, degenera às vezes em obsessão, mas quanto mais ela é persistente, mais ela prova quão grande é a necessidade de assistência. Portanto, é um erro repeli-lo; é preciso olhá-lo como um pobre que vem pedir esmola e dizer-se: É um Espírito desgraçado que os bons Espíritos me enviam para fazer sua educação. Se eu conseguir, terei a alegria de ter trazido uma alma de volta ao bem, e ter abreviado seus sofrimentos. Essa tarefa é muitas vezes penosa; seria sem dúvida mais agradável ter sempre belas comunicações, e não conversar senão com os Espíritos de sua escolha; mas não é procurando apenas sua própria satisfação, e recusando as ocasiões que nos oferecem de fazer o bem, que se merece a proteção dos bons Espíritos.
**O Doutor Demeure**
Morto em Albi (Tarn), em 25 de janeiro de 1865. O Sr. Demeure era um médico homeopata muito distinto de Albi. Seu caráter, tanto quanto seu saber, lhe haviam conciliado a estima e a veneração de seus concidadãos. Sua bondade e sua caridade eram inesgotáveis, e, apesar da idade avançada, nenhuma fadiga lhe custava quando se tratava de ir cuidar de pobres doentes. O preço de suas visitas não o preocupava; custava-lhe menos deslocar-se pelo desgraçado do que por aquele que ele sabia poder pagar, porque, dizia, este último, na falta dele, podia sempre conseguir um médico. Ao primeiro, não só dava os remédios gratuitamente, mas com frequência lhe deixava com o que prover às necessidades materiais, o que, por vezes, é o medicamento mais útil. Pode-se dizer dele que era o cura d’Ars da medicina. O Sr. Demeure havia abraçado com ardor a doutrina espírita, na qual encontrou a chave dos mais graves problemas cuja solução pedira em vão à ciência e a todas as filosofias. Seu Espírito profundo e investigador fez-lhe imediatamente compreender todo seu alcance, assim ele foi um de seus mais zelosos propagadores. Relações de viva e mútua simpatia se haviam estabelecido entre ele e nós por correspondência. Soubemos de sua morte em 30 de janeiro, e nosso primeiro pensamento foi conversar com ele. Eis a comunicação que ele nos deu no mesmo dia: “Eis-me aqui. Prometera a mim mesmo, vivo, que, logo que estivesse morto, viria, se isso me fosse possível, apertar a mão de meu caro mestre e amigo, Sr. Allan Kardec. “A morte dera à minha alma esse pesado sono que chamamos letargia; mas meu pensamento velava. Sacudi esse torpor funesto que prolonga a perturbação que se segue à morte, despertei, e num salto fiz a viagem. “Como sou feliz! Não estou mais velho nem enfermo; meu corpo não era senão um disfarce imposto; sou jovem e belo, belo dessa eterna juventude dos Espíritos cujas rugas jamais franzem o rosto, cujos cabelos não embranquecem com o passar do tempo. Sou leve como o pássaro que atravessa com um voo rápido o horizonte de vosso céu nebuloso, e admiro, contemplo, bendigo, amo e inclino-me, átomo, ante a grandeza, a sabedoria, a ciência de nosso Criador, a as maravilhas que me rodeiam.“Sou feliz; estou na glória! Oh! Quem poderá falar das esplêndidas belezas da terra dos eleitos; os céus, os mundos, os sóis, seu papel no grande concurso da harmonia universal? Pois bem! tentarei, ó meu mestre; vou fazer um estudo, e virei depositar perto de vós a homenagem de meus trabalhos de Espírito que vos dedico antecipadamente. Até breve. “DEMEURE.”Observação: As duas comunicações seguintes, dadas nos dias 10 e 2 de fevereiro, são relativas à doença que nos acometia naquele momento. Embora sejam pessoais, reproduzimo-las, porque provam que o Sr. Demeure é tão bom como Espírito quanto o era como homem. “Meu bom amigo, tende confiança em nós e boa coragem; esta crise, ainda que cansativa e dolorosa, não será demorada, e, com os cuidados prescritos, podereis, segundo vossos desejos, completar a obra da qual vossa existência foi o objetivo principal. No entanto, sou eu que estou sempre aqui, perto de vós, com o Espírito de Verdade, que me permite tomar em seu nome a palavra, como o último de vossos amigos vindos para o meio dos Espíritos. Eles me fazem as honras das boas-vindas. Caro mestre, como estou feliz de ter morrido a tempo para estar com eles neste momento! Se eu tivesse morrido mais cedo, talvez tivesse podido vos evitar essa crise que não previa; havia muito pouco tempo que eu estava desencarnado para me ocupar de outra coisa além do espiritual; mas agora velarei por vós, caro mestre, é vosso irmão e amigo que está feliz de ser Espírito para estar junto de vós e tratar-vos em vossa doença; mas conheceis o provérbio: “Ajuda-te, o céu te ajudará.” Ajudai portanto os bons Espíritos nos cuidados que eles vos prestam, conformando-vos estritamente às suas prescrições. “Está demasiado quente aqui; esse carvão é fatigante. Enquanto estiverdes doente, não queimeis carvão, pois isso faz aumentar vossa opressão; os gases que dele se desprendem são deletérios. “Vosso amigo, DEMEURE.” “Sou eu, Demeure, o amigo do Sr. Kardec. Venho dizer-lhe que estava perto dele na ocasião do acidente que lhe aconteceu, e que poderia ter sido funesto sem uma intervenção eficaz para a qual fiquei feliz de concorrer. Segundo minhas observações e as informações que extraí de fonte segura, é evidente para mim que, quanto mais cedo sua desencarnação ocorrer, mais cedo poderá se dar a reencarnação pela qual ele virá acabar sua obra. No entanto é preciso que ele dê, antes de partir, a última mão nas obras que devem completar a teoria doutrinal da qual ele é o iniciador, e ele se torna culpado de homicídio voluntário contribuindo, por excesso de trabalho, para a imperfeição de sua organização, que o ameaça com uma súbita partida para nossos mundos. Não se deve temer dizer-lhe toda a verdade, para que ele fique alerta e siga ao pé da letra nossas prescrições.“DEMEURE.”A comunicação seguinte foi obtida em Montauban, em 26 de janeiro, dia seguinte à sua morte, no círculo dos amigos espíritas que ele tinha nessa cidade.“Antoine Demeure. Não morri para vós, meus bons amigos, mas para aqueles que não conhecem, como vós, esta santa doutrina que reúne os que se amaram nesta terra, e que tiveram os mesmos pensamentos e os mesmos sentimentos de amor e de caridade.“Sou feliz; mais feliz do que podia esperar, pois gozo de uma lucidez rara entre os Espíritos desprendidos da matéria há tão pouco tempo. Tomai coragem, meus bons amigos; estarei frequentemente perto de vós, e não deixarei de vos instruir sobre muitas coisas que ignoramos quando estamos presos à nossa pobre matéria que nos oculta tantas magnificências e tantos gozos. Rezai por aqueles que estão privados dessa felicidade, pois eles não sabem o mal que fazem a si mesmos.“Não ficarei por muito tempo hoje, mas vos direi que não me acho um estranho neste mundo dos invisíveis; parece-me que sempre o habitei; sou feliz aqui, pois vejo meus amigos, e posso comunicar-me com eles todas as vezes que desejo.“Não choreis, meus amigos, pois me faríeis lamentar ter-vos conhecido. Dai tempo ao tempo, e Deus vos conduzirá a esta morada onde devemos todos nos encontrar reunidos. Boa noite, meus amigos: que Deus vos console; estou perto de vós.“DEMEURE.”Outra carta de Montauban contém a seguinte narração: “Havíamos escondido da Sra. G..., médium vidente e sonâmbula muito lúcida, a morte do Sr. Demeure, para poupar sua extrema sensibilidade, e o bom doutor, concordando sem dúvida conosco, evitara manifestar-se a ela. Em 10 de fevereiro passado, estávamos reunidos a convite de nossos guias que, diziam eles, queriam aliviar a Sra. G... de um entorse que a fazia sofrer cruelmente desde a véspera. Não sabíamos mais do que isso, e estávamos longe de esperar a surpresa que eles nos preparavam. Mal essa senhora entrou em sonambulismo, soltou gritos dilacerantes mostrando seu pé. Eis o que ocorria:“A Sra. G... via um Espírito curvado sobre sua perna, cujos traços lhe permaneciam ocultos; ele fazia fricções e massagens, exercendo de tempos em tempos sobre a parte doente uma tração longitudinal, absolutamente como um médico teria feito. A operação era tão dolorosa que a paciente se entregava por vezes a vociferações e a movimentos desordenados. Mas a crise não foi de longa duração; ao fim de dez minutos todo sinal do entorse havia desaparecido, nada de inchaço, o pé recuperara sua aparência normal; a Sra. G... estava curada.“No entanto o Espírito permanecia desconhecido do médium, e persistia em não mostrar seus traços; tinha mesmo ar de querer ir-se embora, quando de um salto nossa doente, que, alguns minutos antes, não podia dar um passo, se precipita para o meio do quarto para pegar e apertar a mão de seu doutor espiritual. Ainda dessa vez o Espírito desviara a cabeça deixando sua mão na dela. Nesse momento, a Sra. G... dá um grito, e cai desmaiada no chão; ela acabava de reconhecer o Sr. Demeure no espírito curador. Durante a síncope, ela recebia cuidados solícitos de vários Espíritos simpáticos. Por fim, tendo reaparecido a lucidez sonambúlica, ela conversou com os Espíritos, trocando com eles calorosos apertos de mão, especialmente com o Espírito do doutor que respondia a suas provas de afeição penetrando-a de um fluido reparador. “Esta cena não é tocante e dramática, e não se acreditaria ver todos esses personagens desempenharem seu papel na vida humana? Não é uma prova entre mil que os Espíritos são seres bem reais, tendo um corpo e agindo como o faziam na terra? Estávamos felizes por reencontrar nosso amigo espiritualizado, com seu excelente coração e sua delicada solicitude. Ele fora,durante a vida, o médico da médium; conhecia sua extrema sensibilidade, e cuidara dela como sua própria filha. Essa prova de identidade dada àqueles que o Espírito amava, não é impressionante e apropriada para fazer encarar a vida futura em seu aspecto mais consolador? Observação. – A situação do Sr. Demeure, como Espírito, é exatamente aquela que podia fazer pressentir sua vida tão dignamente e tão utilmente ocupada; mas outro fato não menos instrutivo destaca-se dessas comunicações, é a atividade a que ele se entrega quase imediatamente após a morte, para ser útil. Por sua grande inteligência e suas qualidades morais, ele pertence à ordem dos Espíritos muito avançados; ele é feliz, mas sua bem-aventurança não é a inação. A alguns dias de distância, ele tratava de doentes como médico, e, assim que se liberta apressa-se a ir tratar deles como Espírito. O que se ganha então por estar no outro mundo, dirão certas pessoas, se não se goza do repouso? A isso perguntaremos primeiro se não é nada não ter mais preocupações, nem as necessidades, as enfermidades da vida, ser livre, e poder, sem fadiga, percorrer o espaço com a rapidez do pensamento, ir ver seus amigos a toda hora, seja qual for a distância a que se encontrem? Depois acrescentaremos: Quando estiverdes no outro mundo, nada vos forçará a fazer o que quer que seja; sereis perfeitamente livres para ficar numa beata ociosidade tanto tempo quanto vos agradar; mas cansareis logo desse repouso egoísta; sereis os primeiros a pedir uma ocupação. Então vos será respondido: Se vos entediais de não fazer nada, procurai vós mesmos fazer algo; as ocasiões de ser útil não faltam mais no mundo dos Espíritos do que entre os homens. É assim que a atividade espiritual não é uma coerção; ela é uma necessidade, uma satisfação para os Espíritos que buscam as ocupações em relação com seus gostos e aptidões, e escolhem de preferência aquelas que podem ajudar no seu adiantamento.
